Queixo-me às rosas
A minha intenção não era falar de amor hoje. Porque de amor estamos fartos. Estou farta de um sentimento que cada vez mais se confunde com coisas vãs, envolto em sua platonicidade. E, por ser platônico, já está fadado ao fim. O amor se tornou uma idealização, algodão-doce lindo que desaparece assim que encosta na língua. Isso não pode ser o amor, dotado de um conceito ralo, efêmero, sem qualquer profundidade, misturando-se erroneamente à paixão.
E assim, enebriados pela efemeridade desse falso amor, falar dele já nos cansa. É claro que aqui falo do amor ideal, aquele que aparece todos os dias na novela das seis, sete, oito e “vale a pena ver de novo”. Você busca por isso a vida toda. Se sofrer, é fato que é amor. Como se o sofrimento pudesse validar a pureza do sentimento, tornando-nos mártires pelo amor, fazendo-nos sentir pessoas melhores quando escolhemos e nos permitimos sofrer por amor. Mas eu não pretendia falar de amor. Não desse amor.
Por que não? O amor é o sentimento acima de todos os outros. “Se eu não tiver amor, nada serei.” A verdade é que grande parte da população mundial sofre por amor. Sim, estamos todos sofrendo por amor. Corações partidos, dores de cotovelo, chutados, pisados e esquecidos pelo amor! E não digo qualquer forma de amor, mas o amor homem-mulher. Amor eros, amor em que dois corpos se tornam um. Ah, o amor… Sim, o amor. Desde cedo já sabemos que quem ama sofre. E quem nunca amou, ainda sabendo deste detalhe desagradável, procura ansiosamente pelo amor. E nossa epidemia de corações partidos só faz aumentar. Estamos todos perdidos, solitários, amantes mal-amados, queremos logo o band-aid que vai cobrir o vazio de um coração ferido. É um bode generalizado. Chega a ser preocupante, eu diria.
Claro, o homem não foi feito para ser só. É natural que busquemos um parceiro durante a vida, e é natural que nos sintamos incompletos se não o temos. É natural que o instinto seja de preservar a espécie. Tudo aí é muito natural. E a paixão também. Ela vai, volta, arde, nos queima. Ela faz exatamente aquilo que sua efemeridade natural foi impelida a fazer, longe de merecer ser chamada de amor. Mas o amor real… o que há de natural nisso? Pois eu digo: nada. Não há nada de natural no amor, pois ele não vem do homem. O amor é divino, e é dádiva. Não corresponde às expectativas humanas e nem age de forma humana. Ele é sobrehumano, e é a única coisa que realmente permanece. E, quando se une à paixão, provoca terremotos emocionais. Provoca vidas, famílias. E, consequentemente, provoca também mais amor, em suas mais variadas formas. E é sobre esse amor que eu gostaria de falar. É sobre esse amor que vale a pena falar.
Mas não, hoje eu não vou falar de amor…
Filed under: antigos textos, reflexões | 2 Comments
Eeeeee! Famílias..quero logo a minha! =D
É, não vamos falar sobre amor hoje, não, deixa pra outro dia…