Eu tenho sérios problemas para desfazer malas. Fico dias - às vezes semanas – para desfazer completamente uma mala, seja esta a mala da viagem de dois meses ou a mala da viagem de uma semana. Vou, aos poucos, movendo os objetos de lugar, desdobrando uma roupa aqui, dobrando outra ali. Mas é certo que desfazer uma mala é quase um suplício para mim.

Fazê-las também não é meu forte. Já começo tendo que retirar tudo do armário. Tenho que enxergar tudo, visualizar todas as opções para então selecionar aquilo que realmente é essencial e criar dentro de um espaço totalmente limitado aquilo que se tornará uma partícula do meu universo real durante os próximos dias, semanas ou meses. É um esforço quase cruel.

Quando faço as malas, eu tenho uma pequena amostra do meu eu atual, daquilo que me compõe. Se José Ortega y Gasset disse que “eu sou eu mais as minhas circunstâncias”, logo posso afirmar também que a mala é isso aí: Minhas circunstâncias fechadas com zíper. Se estou passando por uma fase mais indecisa e de ansiedade, a mala tende a ser maior. Se estou desencanada em relação à vida, as malas se tornam simples, enxutas, de uma coesão quase impressionante. Ocasionais segurança ou indiferença em relação à vida podem levar a simplificar nossos conceitos de necessidade. E aí o menos não necessariamente se torna mais, porém sim se torna satisfatório e suficiente, estejamos nós bem ou mal.

Mas é muito complicado ter que reduzir todo o seu universo atual a uma simples mala que não te leve a pagar taxas abusivas de excesso de peso e nem te faça esbravejar mais tarde pelas coisas que esqueceu ou que se arrependeu de não tê-las trazido consigo. É tão trabalhoso para mim que, quando termino a mala, não tenho vontade de abrí-la nunca mais, para não estragar todo o trabalho. Mas eu abro, obviamente. E a mala organizada se converte em um verdadeiro caos com o passar dos dias. Mas até no caos há ordem, e uma certa cumplicidade vai sendo formada entre eu e minha mala. Pode estar caótica, porém eu encontro um jeito de funcionarmos. E quando não funcionamos, eu simplesmente fecho o zíper.

Depois de todo este esforço de comprimir todas as minhas circunstâncias em um pacote que pode variar entre 15 e 32 quilos (dependendo do destino), eu confronto a idéia de ter que desfazer tudo isso. Tenho que recolocar meu pequeno caos na desordem organizada de um caos anterior. E eu simplesmente não consigo. A pobre mala fica lá, largada em um canto, quase como um objeto de decoração. Às vezes eu paro perto dela e fico pensando no que fazer. Não sei porque simplesmente não vou lá e faço! Simplesmente não faço. Ou desfaço, nesse caso. E os objetos vão retornando a seus devidos lugares com o tempo, quando finalmente eu começo a voltar ao meu antigo universo, ao meu caos anterior.

Não tenho vergonha de dizer que eu sobrevivo em meio ao meu próprio caos. De fato, eu o necessito. O caos me inspira. Organização demais me dá uma sensação estranha, prefiro assumir minha desorganização. Mesmo agora, enquanto escrevo, existe uma pequena mala num canto do meu quarto, aguardando pelo feliz momento em que eu irei desfazê-la. Estão lá, minhas circunstâncias expostas em pedaços de tecidos, calçados e produtos de higiene, compondo o meu conceito de necessário, compondo a mim. Incrível como eu nunca perco a chance de me analisar, mesmo com coisas tão… simples.



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