Eu tenho uma irmã mais nova que sabe bastante de mim. Mais do que muitas vezes eu gostaria. E às vezes menos. Mas na maioria das vezes ela sabe bem. Coisa de meninas de idade próxima. Coisa de irmãs próximas também.

Como uma futura psicóloga, ela adora me fazer de cobaia para seus testes e análises (o que eu acredito não ser muito bem visto, já que ela é minha irmã e um psicólogo não pode tratar amigos e familiares). Mas é tudo muito sem compromisso, e eu confesso que esse negócio de se auto-conhecer melhor através de análise muito me atrai.

Então minha irmã disse que iria fazer um teste novo comigo, no qual ela analisaria desenhos meus. Eu topei. Desenhar é comigo.

Primeiro, instruções bem precisas: desenhe uma casa, da forma que lhe aprouver. Pensei por uns momentos numa casa que valeria a pena desenhar. Pensei numa foto que vi numa revista de decoração e construção uma vez e revivi a sensação de desejar uma igual. Revivi a sensação gostosa de quem sonha em construir não só uma casa, mas um futuro. A partir desse pensamento, que não durou mais que uma fração de segundo, eu já sabia que iria desenhar a casa onde eu gostaria de morar. Comecei pela rua, o asfalto e suas faixas amarelas. O canteiro na calçada onde ficava um ipê cor-de-rosa vibrante. E uma casinha de dois andares, geminada e com tijolinhos à vista, começou a surgir no traçado. Janelas grandes e de vidro, com cortinas azuis e uma imponente porta vermelha. Só me esqueci da garagem. Bem, mas já que estamos falando de uma casa idealizada, creio poder assumir que o transporte público era o ideal também. Portanto, esqueçamos o carro e a garagem.

Engraçado é que o objeto desenho é sempre você, independente do teste. Eu sou minha casa. E mais: sou a casa do meu futuro, o que seria um traço de ansiedade. Verdade, admito.  Não vou escrever aqui todas as coisas que ela me disse. Acho muito pessoal, até mesmo porque achei que as coisas que ela me disse faziam sentido demais pro meu gosto. Mas é bom entender como tenho construído minha casa. Não pude levar o desenho, então fiquei com vontade de compartilhar em palavras e, assim, construir uma imagem mental novamente da casa. E de mim, claro.



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